D.G. SILVA

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Damião Gomes é autor dos livros O SEMEADOR DE PALAVRAS AVULSA, CORAÇÃO DE PEDRA & OUTRAS HISTÓRIAS E O FUTURISTA.

01/09/2025

Páginas de Amizade

Há quem empreste livros como quem oferece um café: com leveza, sem apego. Eu não. Meus livros são como memórias encadernadas — íntimos, silenciosos, cúmplices. Não os empresto. Não por egoísmo, mas por zelo. Já tentei, juro. Mas cada tentativa virou uma despedida sem volta.
Há objetos que se tornam extensões da gente, como se tivessem absorvido nossas impressões digitais, nossas manias, nossos silêncios. Livro, então, é quase confidente.
Já tentei ser generoso. Comprei Olga, de Fernando Morais, cheio de vontade de conhecer a história daquela jovem judia entregue ao regime nazista. Antes de abrir a primeira página, emprestei. Nunca mais voltou. Comprei outro. Mesma história. O livro virou lenda na minha estante — duas vezes perdido, duas vezes não lido.
Acabei conhecendo Olga pelo cinema. Mas filme não é livro. Filme é síntese. Livro é alma, é mergulho. O tempo do livro é outro — não cabe em duas horas de tela. É feito de pausas, de releituras, de sublinhados. É feito de nós.
Já fui colecionador de sons — vinis, fitas, CDs. Hoje, tudo cabe num clique. Mas livro? Livro precisa de presença. De toque. De cheiro. De peso. Livro é físico, é ritual. É companhia.
Tenho ciúmes dos meus livros. Gosto de vê-los ali, limpos, alinhados, prontos para serem abertos. São como bichos de estimação silenciosos, fiéis, sempre à espera. Alguns até gostam de passear comigo: vão ao banco, ao trabalho, à fila do mercado. Descobri que certos livros têm vocação para o mundo.
Sou um devorador de páginas. Um glutão literário. E não me envergonho. Se é pecado, que seja dos mais nobres. Compro mais do que consigo ler, é verdade. Mas não me culpo. Há quem acumule sapatos, gravatas, eu acumulo histórias. E mesmo os não lidos me fazem companhia. Estão ali, como promessas de mundos por descobrir.
Depois de assistir ao devastador A Escolha de Sofia, corri à livraria. Queria entender como o autor escreveu aquela cena cruel — a mãe obrigada a escolher qual filho salvar. Comprei o livro. Guardei. Esqueci. Vinte anos depois, li. As páginas escurecidas pareciam guardar o peso do tempo. E foi ali, entre palavras, que a dor de Sofia se revelou ainda mais profunda que na tela.
Tenho livros espalhados por todos os cantos: no carro, na cama, na mochila. Alguns gostam de passear comigo. Esperam em filas, descansam em bancos de praça, tomam cafezinho comigo. São companheiros de jornada.
Prefiro ler a conversar — embora adore conversar sobre livros. Literatura é cinema mental, já disseram. Concordo. Ler é viajar sem sair do lugar. É ouvir música com os olhos. É viver outras vidas sem abandonar a própria.
Séries? Poucas me prendem até o fim. Vi Black Mirror, fascinado. Mas parei. Das que vi até o fim, lembro de The Crown, pela história da realeza britânica; Bolívar, o libertador incansável; e Marco Polo, o aventureiro que desbravou mundos.
Mas nenhuma delas me deu o que um bom livro dá: o silêncio que escuta, a página que acolhe, a história que se molda ao nosso tempo interno.
Livro é sábio. Escuta sem interromper. Aguenta nossas inquietações. Fala com a gente através dos séculos. É a voz de deuses, profetas, reis, heróis, visionários. É ponte entre o agora e o antes.
Cada livro que chega é um hóspede ilustre. Repousa em paz na estante, esperando ser tocado, decifrado, vivido. São testemunhas silenciosas da nossa busca por sentido.
E você, amigo leitor?
Como navega nesse mar de opções — livros, filmes, séries, músicas, redes? Como escolhe o que merece seu tempo, sua atenção, sua alma?

01/09/2025

Momento de lazer em Lloret de Mar, Catalunha, 05/24

Photos from D.G. SILVA's post 25/02/2024

IOLE RN II

O MAIOR FEITO NÁUTICO DO MUNDO, segundo a BBC de Londres, teve início no dia 30.03.1952 com cinco remadores partindo de Natal rumo ao Rio de Janeiro.

Depois de paradas, acidentes e muitos contratempos, adentraram, triunfantes, as águas da Baía da Guanabara, em 21.05.1953.

O grande sonho dos valentes remadores havia começado 20 anos antes, quando testaram suas habilidades no manejo de uma Iole – embarcação esportiva a remo - num “raid” de sucesso Natal-Recife.

Os anos se passaram e o sonho, desacreditado por muitos, se manteve. A Marinha não liberou a licença para eles fazerem a grande travessia, feito considerado de alto risco e até então não alcançado.

Foi preciso a interferência direta do Vice-Presidente da República, Café Filho, o qual conseguiu a autorização para a realização do raid Natal-Rio pelos conterrâneos.

Dos cinco bravos tripulantes que iniciaram a viagem na primeira embarcação - Ricardo da Cruz (63 anos), patrão; Antônio de Souza Duarte (49), voga; Clodoaldo Bakker (59), sota-voga; Francisco de Paula Madureira (44), sota-proa; e Oscar Simões Filho (39), proa -, dois desistiram após naufrágio ocorrido na costa de Sergipe (Francisco de Paula Madureira e Clodoaldo Bekker).

Após o naufrágio, três decidiram continuar a jornada e os desistentes foram substituídos por Luís Enéas e Walter Fernandes - dono da água mineral Santos Reis, com apenas 27 anos de idade. (https://curiozzzo.com/um-dos-maiores-feitos-nauticos-do-mundo-aconteceu-no-rio-grande-do-norte).

Finalmente, após quase 100 dias de jornada, ocorreu a tão esperada chegada ao Rio de Janeiro. Eles foram efusivamente recebidos e aplaudidos pelas autoridades, a população e remadores nacionais e internacionais presentes.

Depois de recebem as devidas homenagens, voltaram para a terra Natal na condição de heróis do remo.
E a bela IOLE RN II encontra-se em exposição no Museu da Rampa, no bairro de Santos Reis, conservada e guardada como testemunha de uma época de ouro do remo potiguar.

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