Abstract Reveries

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Esse blog é a alquimia que posso transformar em palavras.

31/01/2026

Amo-te na gramática do indizível,
nesse território onde o verbo antecede a carne
e o sentido se inclina antes mesmo de nascer.
Não és presença.
És a pressão de um vazio organizado,
uma arquitetura de ausência que sustenta meu pensamento
como colunas que ninguém vê, mas que impedem o desabamento.
Meu afeto não caminha; ele orbita.
Não chama, não implora, não invade.
É um amor sem demanda, quase monástico,
feito da disciplina rigorosa de não tocar
aquilo que, se tocado, se desfaria.
Amo-te como se ama um axioma:
não se prova, não se explica,
apenas se aceita,
ou se enlouquece tentando negar.
Habitas-me como um excesso abstrato,
demasiado lúcido para ser sonho,
demasiado distante para ser corpo.
És ideia com pulsação,
silêncio com densidade moral.
Nada em mim te pede.
Tudo em mim te reconhece.
E se este amor dói,
é porque não sangra.
É porque não encontra saída no mundo
e retorna, sempre,
à mesma câmara interna,
onde o sentir se acumula
até ganhar peso ontológico.
Não te amo para que existas.
Amo-te para que eu não me dissolva.
Pois há vínculos que não conectam dois seres,
mas impedem um só
de cair no nada.
E assim te guardo,
não como nome nem como rosto,
mas como uma cifra irrevogável
cravada no centro da consciência.
Um amor tão puro em sua impossibilidade
que só pode ser compreendido
por quem aceita, enfim,
não compreender.

E. E. K
Giovanna Tuzin 。・:*:・゚★,。・:*:・゚☆

19/01/2026

Cartografia de uma Mulher que Permanece🌻

Carrego no dorso a memória das tempestades,
não como queixa, mas como brasão.
Minha carne aprendeu cedo
a gramática rude dos golpes,
e o amor, esse impostor,
vestiu-se muitas vezes de punho e de engano.
Fui casa em chamas
para companheiros que prometeram abrigo
e deixaram escombros.
Fui lealdade traída,
espelho estilhaçado por promessas adúlteras,
aprendendo a reconhecer meu rosto
mesmo em cacos.
Pari dois sóis
que me foram arrancados pela geografia cruel do mundo.
Vivem além-mar, além-tempo,
e há quase uma década
meu colo conversa com a ausência.
Sou mãe de saudade crônica,
uma dor que não cicatriza,
apenas aprende a respirar.
Ainda assim, permaneço.
Permaneço quando a vida aperta o cerco,
quando o dinheiro falta
e o amanhã exige coragem emprestada.
Permaneço cuidando com devoção infinita
do meu filho, universo singular,
sensível, brilhante,
enquanto o mundo me nega mãos auxiliares.
Sou exército de uma só mulher,
vigília sem revezamento,
amor em estado bruto.
E mesmo exaurida,
não me tornei pedra.
Há em mim um mapa secreto de sonhos:
vejo a Califórnia como quem vê redenção,
um horizonte banhado de luz
onde meu cansaço talvez aprenda a descansar.
Vejo-me togada, altiva,
fazendo do Direito minha espada ética,
transformando a injustiça que me feriu
em instrumento de defesa para outros corpos cansados.
Sou feita de cicatrizes,
mas nenhuma delas me anulou.
Sou sobrevivência que pensa,
dor que não se ajoelha,
mulher que, apesar de tudo,
insiste em florescer
onde só havia concreto.
E enquanto houver fôlego,
serei prova viva
de que a esperança,
quando nasce no fundo do abismo,
é a mais indomável das forças.

Giovanna Tuzin 🌻

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Piracicaba, SP