Escritor James Nungo
Escritor e Professor de Inglês
Escrever é descobrir a cada dia a minha essência. Meta: 2500 Escreve terror, ação, ficção científica e fantasia.
27/10/2025
[DIA SEIS: OS DETALHES SÃO A ALMA DO TEXTO]
O teu papel não é despejar palavras bonitas no meio do texto, mas saber escolher as certas, apenas aquelas que ajudam o leitor a entender a informação.
Stephen King, em Sobre a Escrita, diz que “a descrição é o que transforma o leitor num participante sensorial da história. A boa descrição é uma habilidade que se aprende, uma das principais razões pelas quais não se consegue ser bem-sucedido a não ser que se leia e escreva muito” (p. 98).
E, se há alguém que faz isso muito bem, é Pepetela. Vejamos um excerto:
“Vou sempre pintar Benguela com as mais vistosas cores e o rival Lobito ou a rivalíssima Luanda com as piores de todas, misturando cinza e terra molhada com cocó de cão, mesmo se cada uma delas tem baías que não existem em parte nenhuma do Mundo” (Jaime Bunda e a Morte do Americano, p. 28, Pepetela).
Ao dizer que vai “pintar Benguela com as mais vistosas cores” e “Luanda com cocó de cão”, o narrador expressa um ponto de vista, talvez uma relação emocional com o espaço (soube recentemente que o kota Pepetela é de Benguela). Nesse caso, o exagero é um recurso de textura para criar ritmo e ironia.
A boa escrita é aquela que faz o leitor ver o suficiente para acreditar na história. Aníbal Simões, por sua vez, em “O Feitiço da Rama de Abóbora”, escreve:
“Os últimos raios do sol escondem-se nas montanhas e dão uma cor plúmbea a todo o redor” (O Feitiço da Rama de Abóbora, p. 79).
É uma frase simples, mas é uma cena completa. E foi descrita com palavras igualmente simples. É apenas o sol que se esconde e o plúmbeo que cobre tudo. O leitor sente a mudança de luz, o peso do fim do dia, sem precisar de mais nada.
Evita perder-te à procura de palavras. Recebo constantemente mensagens de pessoas a dizerem: “Tento escrever, mas não consigo. Tenho a ideia, mas, na hora de escrever, não encontro as palavras.”
Isso acontece porque se perdem a tentar achar as palavras mais bonitas possíveis. Começa por escrever de forma básica, deixa as palavras belas para a fase da edição.
Um texto sem detalhe é pálido. Mas, no começo, é natural que os detalhes faltem.
Vejamos um exemplo prático:
📌 | Certa manhã, Filomena visitou Fernando Pacavira.
O que temos aqui? Apenas uma frase.. Este é o meu primeiro esboço, estou a escrevê-lo agora, à medida que digito. Mas que tal construir as coisas e começar a colocar os detalhes?
📌 | Certa manhã de julho, quando os ventos do inverno desfilavam pelas ruas da cidade de Luanda, Filomena, jovem magra, de corpo esbelto e cobiçado por muitos, visitou Fernando Pacavira, nos arredores da Ilha de Luanda.
Ok. Talvez tenha exagerado nos detalhes… Talvez eu opte por mudar tudo, talvez decida escrever de outro modo, quem sabe, talvez fique melhor assim:
📌 | Quando os ventos do inverno chegaram à cidade de Luanda, Filomena não conseguiu conter o peso da saudade que emanava do seu coração e, tomada por uma profunda tristeza, decidiu enfrentar as duras calúnias dos familiares e, pela primeira vez em meses sem poder ver o seu amante, abandonou a casa para visitar Fernando Pacavira uma última vez, na Ilha de Luanda.
Ficou grande? É… ficou. Mas estou a criar tudo de momento, apenas para te fazer entender que nada surge do nada.
No primeiro exemplo, temos uma história curta. No segundo, recebemos um vislumbre do clima e dos traços da beleza de Filomena. Mas, no terceiro, temos uma narrativa mais contextualizada. Se fosse para começar um romance, ficaria com a última opção.
No fundo, tudo depende do que se quer transmitir.
Tudo precisa ser lapidado à medida que fores escrevendo. É um erro achar que, à primeira tentativa, terás o texto definitivo. Escreve, volta e reescreve. A prática conduzir-te-á à perfeição.
O meu nome é Bondi Kiala, e, pela tua atenção, o meu muito obrigado.
"E ele não pode derramar lágrimas, mas limpar as do mundo"
Bom dia a todos os leitores em especial os cristãos.
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