Isabel Fontes

Isabel Fontes

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Críticas que eu escrevo sobre livros que leio em diferentes línguas — português, inglês, espanhol ( por vezes francês!). Partilho aqui & Goodreads. Leia/Comente!

13/12/2025

Li Eros após o livro me ter chegado numa escala de avião, sobrevivido a caixas de mudanças e esperado, pacientemente, por uma casa nova. Essa viagem não o transformou; apenas o colocou em suspensão. A leitura começou quando o espaço ficou em silêncio.

Eros não se lê como um livro de poemas convencional. Lê-se como um campo. Um terreno onde palavra, página e corpo se testam mutuamente. Filipe Chinita escreve com uma consciência aguda de que o erotismo não reside no que é dito, mas na forma como o dizer se aproxima, recua, falha ou insiste. Aqui, o desejo não é tema: é método.

O poema cresce verticalmente, escavando. As palavras isolam-se, quebram-se, abrem parênteses, recusam a fluidez fácil. Há uma recusa deliberada da frase confortável. Cada verso parece perguntar-se se tem o direito de existir — e é precisamente essa dúvida que o legitima. O erotismo em Eros é um exercício de atenção extrema: ao corpo, à memória, à linguagem, à história.

O livro constrói-se em camadas. Corpo íntimo e corpo político não se separam. A sexualidade é atravessada pela herança, pela violência histórica, pela educação sentimental de um país e de uma língua. Há aqui um entendimento claro de que não existe desejo inocente — e, ainda assim, o texto insiste numa possibilidade de beleza. Uma beleza tensa, nunca decorativa.

A disposição gráf**a não é um adorno: é semântica. O espaço em branco não ilustra o silêncio; é o silêncio. As imagens contaminam o poema, não como ilustração, mas como matéria orgânica. O livro exige tempo e exige o corpo do leitor — os olhos, a respiração, a paciência.
Não há concessões.

O que mais me interessa em Eros é a sua ética. Este é um livro que não seduz para agradar, mas para deslocar. Não procura cumplicidade fácil, nem reconhecimento imediato. Há risco na forma, risco no tom, risco na exposição. O erotismo aqui não é consumo: é fricção.

Quando fechei o livro, não senti que tivesse terminado uma leitura, mas que havia percorrido um caminho. Eros não deixa uma conclusão — deixa um estado. Um lugar onde a linguagem ainda treme, onde o corpo ainda pensa, onde o desejo continua indomável, incómodo e necessário.

É um livro que não pede amor. Pede atenção. E isso, hoje, é raro.

@seguidoresáFábrica de Textos - Grupo Escrita CriativapApaixonados por Livros e DivulgaçãoiDicas de leituramAmantes da Leitura

24/11/2025

Ler A Desobediente foi como abrir uma janela antiga: daquelas que rangem, que deixam entrar vento e memória ao mesmo tempo.

Eu já conhecia Maria Teresa Horta — ou melhor, conhecia-a na forma luminosa e afiada dos seus poemas, das suas cartas incendiárias, daquela coragem de quem escreve com o corpo inteiro. Mas Patrícia Reis ofereceu-me outra Teresa: a menina ferida, vigilante, insubmissa desde o berço, aquela que aprendeu demasiado cedo que o mundo não tem almofadas para suavizar quedas femininas.

A biografia avança com um lirismo contido, quase cinematográfico. Há páginas que parecem planos de luz rasgada: a mãe afundada numa depressão invisível; a avó que salva, ampara, acende; a Teresinha que observa tudo com a inquietação própria de quem já nasceu a conspirar liberdade. Confesso que, em certos momentos, me apanhei a sorrir daquele seu temperamento de faísca — uma desobediente por vocação, com uma lucidez precoce que faria tremer muito adulto.

E depois, claro, o país. Portugal surge no livro como um cenário rígido, quase claustrofóbico, onde Teresa tenta alargar as paredes a golpes de palavra. A ditadura, a censura, a vigilância — tudo isso atravessa a narrativa como uma respiração áspera. Mas a cada golpe, Teresa responde com poesia. Parece uma excentricidade heroica, mas é simplesmente o modo como ela existe: a língua é o seu refúgio e a sua arma.

Patrícia Reis consegue algo raro: ilumina sem domesticar. Não tenta suavizar as ambiguidades, o temperamento vulcânico, as zonas de sombra. Mostra a Teresa inteira — a poeta, a militante, a amante, a filha ferida — com uma escrita elegante, sensorial, que por vezes parece caminhar na fronteira difusa entre romance e testemunho.

As partes sobre Novas Cartas Portuguesas são particularmente arrepiantes. A perseguição, a vigilância, as fronteiras fechadas e as portas a bater — e, ao mesmo tempo, as vozes femininas que ecoam para lá das fronteiras, num coro clandestino. É o momento em que percebemos que a literatura não salva apenas quem a escreve; salva também quem a lê, quem a transporta, quem a sussurra.

Fechei o livro com uma espécie de silêncio atento — aquele silêncio que só sentimos quando uma vida nos atravessa. E fiquei a pensar que Maria Teresa Horta nunca “pertenceu” à literatura portuguesa: ela antes a reinventou, com a mesma ousadia com que se recusa a caber num molde.

Recomendo esta biografia a quem gosta de livros que fervilham, que perturbam, que iluminam. E também a quem precisa, de quando em quando, de recordar que a liberdade não nasce pronta — constrói-se, verso a verso, desobediência a desobediência.

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09/11/2025

O Meu Pai Voava, de Tânia Ganho, é um livro sobre o amor em queda e o voo interior que se segue à perda. É também um testemunho raro da fragilidade humana diante do esquecimento e da força silenciosa que nasce de continuar a amar alguém que já não nos reconhece.

A autora escreve sobre o pai — um homem brilhante, curioso, cheio de vida — e sobre o modo como o Alzheimer o foi levando, pouco a pouco, até ao ponto de o corpo permanecer e a memória desaparecer. Mas Tânia Ganho não se limita a descrever o processo: transforma-o num exercício de ternura e lucidez, em que cada gesto quotidiano se torna uma prova de amor e resistência.

A escrita é depurada, elegante, sem dramatismo e, por isso, profundamente tocante. Entre recordações e reflexões, a autora vai desfiando o que resta quando a presença física já não basta — a culpa, o alívio, a saudade, o silêncio.

Em cada página, a dor é atravessada pela gratidão, e o luto surge como um espaço de reconciliação.

Há passagens de uma verdade quase insuportável — como quando Tânia admite o alívio que acompanha o fim de uma morte lenta — e é precisamente nessa honestidade que reside a grandeza do livro.

O Meu Pai Voava é uma celebração serena da vida, mesmo quando ela se apaga. Um livro sobre a despedida que nunca se conclui, sobre o amor que persiste e, sobretudo, sobre a delicadeza de continuar a escrever quando já não há voz para responder.

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17/10/2025

Paris: Quando nada é o que parece ser, Gleidston César

Há livros que nos tocam pela história e há outros que nos tocam pela voz. Paris: Quando nada é o que parece ser ,é um desses raros livros em que o autor escreve não apenas com as palavras, mas com as feridas. Gleidston César oferece-nos um romance que começa como memória e se transforma em revelação — uma viagem interior pela infância, pelo abandono e pelo espanto de existir num mundo que tantas vezes nos esquece.

Falo não apenas como leitora, mas como amiga e admiradora do trabalho de Gleidston desde o início do seu percurso literário. Tenho acompanhado a sua escrita crescer com uma coerência rara — sempre fiel à verdade das emoções, sempre atento à fragilidade humana. Em cada novo livro, reconheço essa mesma assinatura: a de quem escreve para tocar, e não apenas para impressionar.

A passagem em que o narrador é deixado na rodoviária — sozinho, com duas bandas desenhadas e uma dor demasiado grande para a sua idade — é uma das mais comoventes que li nos últimos tempos. A escrita de César tem a delicadeza do que é vivido e a força do que nunca se apaga. Há um silêncio a atravessar estas páginas, o mesmo silêncio que separa o amor da perda, a inocência da sobrevivência.

Não é um livro sobre tragédia — é um livro sobre resiliência. Sobre o modo como a ternura, mesmo quando ferida, continua a procurar forma. A personagem de Matilde, essa mulher que surge da noite com mãos de luz, é uma metáfora perfeita para o gesto de salvação que o autor repete ao escrever: resgatar da escuridão o que poderia ter sido esquecido.

A linguagem é limpa, envolta numa melancolia que nunca se torna pesada. Há nela um ritmo quase cinematográfico, mas ao mesmo tempo íntimo — como quem se senta ao nosso lado e nos conta a vida aos sussurros. Cada frase parece ter sido escrita com um cuidado que só quem passou pela dor consegue ter: o cuidado de não ferir o leitor, mesmo quando o que se conta é duro.

Paris: Quando nada é o que parece ser, é, no fundo, uma carta aberta ao passado — e a todos os lugares onde fomos deixados à espera de alguém que talvez nunca voltasse. É um livro sobre o medo e a esperança, sobre o que se perde e o que se encontra, e sobre essa estranha forma de beleza que é continuar a acreditar nas pessoas, mesmo depois do abandono.

Fechei-o com a sensação de ter ouvido uma confissão que não pedia perdão, apenas escuta. E percebi que há histórias que não se esquecem — apenas mudam de corpo e voltam em forma de livro.


Gleidston César

15/10/2025

Ratos e Gatos, de Gleidston Cesar

Ratos e Gatos, do poeta Gleidston Cesar, é uma obra que habita o território da emoção, da reflexão e da delicada arte de perceber o mundo através da intimidade do próprio universo interior. Cada poema surge como uma revelação silenciosa, um convite a deter-nos e a escutar o murmúrio subtil do pensamento e do sentimento entrelaçados.

Este cativante conjunto de poemas entrelaça versos graciosos e palavras encantatórias, criando uma atmosfera que nos envolve suavemente. É uma experiência imersiva — um apelo à contemplação, à entrega à linguagem, ao fluir das marés cambiantes da emoção humana.

O que torna Ratos e Gatos tão fascinante é a forma como cada poema, embora completo em si mesmo, parece estender-se aos outros, formando fios invisíveis de signif**ado e de emoção. A unidade que os une é quase musical — cada texto ressoa com ecos do anterior e prepara o terreno para o que virá. Juntos, compõem um todo harmonioso, ao mesmo tempo delicado e profundo.

Nos versos de Cesar, as estrofes elevam-se e esbatem-se como suspiros, e as metáforas abrem portas para um universo interior — um espaço onde a ausência adquire luz própria. Nas páginas deste livro, encontro frequentemente a palavra, a imagem, o instante fugaz que reacende a sensualidade da distância — a beleza terna de algo, ou de alguém, que permanece por um momento fora do alcance.

Ratos e Gatos é um livro a que se regressa sempre, não para ser lido apressadamente, mas saboreado devagar, como a última luz do entardecer. Recomendo-o de coração aberto — esta notável colectânea do meu querido amigo, o poeta Gleidston Cesar, cuja voz continua a ecoar muito depois de lida a última linha.


Gleidston César

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