Pprocena Angola

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Progresso artístico

20/03/2025

3. - CRÓNICA | A LINGUAGEM DO MUDO

Luanda carregava cicatrizes que o tempo não conseguia apagar. Nas paredes descascadas dos prédios, nos olhos fundos de quem viveu demais, havia uma memória que resistia ao esquecimento – a memória da guerra, da fome e da desgraça que se arrastava pelas ruas como um espectro vil.

Ele estava sempre ali, sentado numa esquina da “Maianga”, com o olhar perdido na linha do horizonte. Ninguém sabia o seu nome. Chamavam-no de “Mudo”, porque nunca dizia palavra. Mas falava com o corpo: os gestos das mãos eram firmes, como se estivesse a contar uma história que só ele conhecia. E ele conhecia muitas.

Lutara nas matas, onde o cheiro a pólvora se misturava com o sangue humano. Vira companheiros tombarem ao lado, sem tempo para despedidas. Aprendera a sobreviver ao som das bombas, a caminhar em silêncio para não acordar a morte. Mas o que mais o assombrava não era o eco das balas – era a fome nos olhos das crianças que encontrava pelos trilhos, o olhar vazio das mulheres esquecidas, tratadas como sombras numa terra que as queria calar de vez.

Nos becos de “Luanda”, ali na “Kamuxiba”, a fome mordia forte. Os corpos magros dobravam-se sob o peso do nada, e as barrigas inchadas das crianças eram balões de miséria prestes a explodir em plena luz do dia. As mães, muitas vezes, comiam o próprio desespero para manter os filhos de pé. Carregavam bacias de frutas já quase podres, vendiam o que restava da sua dignidade e, quando nada mais sobrava, olhavam para o céu com raiva, sem entender que Deus permitisse tanta dor.

As mulheres eram as que mais sofriam. Condenadas ao silêncio, a língua delas era a da resistência invisível – choravam em segredo, sangravam sem reclamar, engoliam os gritos para não incomodar o mundo. E, talvez por isso, foram as primeiras a notar o “Mudo”. Sentiam que ele carregava a mesma dor que elas, que os seus gestos falavam uma verdade que ninguém mais queria ouvir.

Diziam que ele não era apenas um homem. Que tinha sido tocado por um espírito antigo, um guardião que aparecia nos tempos de maior sofrimento. Que as suas mãos não falavam só do passado, mas do que ainda estava por vir. Algumas mulheres começaram a segui-lo em segredo, a observar os seus movimentos e a imitá-los. Não sabiam o que estavam a dizer, mas sentiam que estavam a quebrar algo invisível – uma corrente, uma maldição, uma malha de ferro que as prendia ao chão dessa terra.

Com o tempo, as crianças juntaram-se a elas. E depois, os homens. O “Mudo”, sem nunca dizer nada, criou uma língua nova, feita de gestos que carregavam o peso da história, mas também a promessa de algo diferente. Uma mão estendida significava partilha. Um punho fechado, força. Dedos entrelaçados, liberdade. Era como se ele estivesse a ensinar a cidade a falar de outra maneira, a contar as suas dores sem precisar de voz e de tradutor.

Ninguém sabia de onde ele vinha. Nem para onde ia à noite, quando desaparecia na escuridão e deixava para trás um cheiro estranho – algo entre o sal e o fumo. Os mais velhos diziam que ele ia para a praia conversar com os mortos, que as suas palavras silenciosas eram levadas pelas ondas até ao outro lado do mundo. Outros juravam que ele era um espírito perdido, condenado a vagar até que a cidade aprendesse a curar as suas próprias feridas.

Uma noite, quando a lua brilhava como lâmina sobre o mar, o “Mudo” levantou-se. Caminhou até à “Ilha de Luanda”, descalço, as mãos a moverem-se com mais rapidez, desenhando símbolos no ar como se escrevesse a própria alma. Quem o viu jurou que o chão reluzia sob os seus pés, que as ondas recuavam em respeito.

Ele foi até à água e entrou, sem hesitar, sem olhar para trás. O mar envolveu-o com suavidade, e o seu corpo dissolveu-se numa nuvem de luz que subiu aos céus. Na manhã seguinte, as crianças encontraram palavras escritas na areia, que as ondas teimavam em não apagar.

“Quem carrega a guerra no peito precisa aprender a semear a paz com as mãos. Quem sobrevive à fome aprende a multiplicar o pouco. E quem foi silenciado descobre que o gesto do corpo também grita.”

Desde então, a linguagem do “Mudo” nunca mais foi esquecida. Transformou-se num símbolo, numa dança de resistência que se espalhou pela cidade. As mulheres usavam-na para exigir respeito. Os famintos usavam-na para pedir justiça. E “Luanda”, pouco a pouco, reaprendeu a falar – não só com a boca, mas com o corpo inteiro. Porque, às vezes, é no silêncio que nasce a revolução.

Autoria: Vilamarta

20/03/2025

OSSADAS DE PALAVRAS

Expurguem-me!
Queimem as sombras que dançam nos muros da minha voz,
arranquem os ecos que se agarram ao ventre seco da terra,
e deixem-me nu, feito cinza que o vento não leva.

Porque há restos de um tempo preso às minhas mãos,
há sangue antigo pulsando nas sílabas que cuspo,
há caligrafias enterradas nos ossos da pátria,
esperando que alguém as desenterre com a fúria do verbo.

Eu sou o artista semântico,
o que afunda canhões dentro de estrofes,
o que molda trincheiras com metáforas cortantes,
o que sangra tinta enquanto o silêncio se faz tropa.

Os desertos da chana me chamam pelo nome,
as embarcações naufragadas sussurram minha sina,
e o sol, ferido de fraqueza,
desaba sobre a barricada da minha existência.

Ngola, minha mãe de feridas abertas,
purga em mim os rastros dos esquecidos,
as vozes que se perderam na gramática do abismo,
os corpos que jazem sob lençóis de areia e sal.

E quando tudo for cinza e silêncio,
quando os versos forem apenas ossadas limpas,
talvez então, no peito de um outro sonhador,
nasça de novo a palavra proibida.

Autoria: Vilamarta

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