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02/06/2023

“ Detox” da Cultura e do Clima Organizacional

Um dos maiores riscos para o processo de gestão estagnar-se é o de posicionamento do gestor em favor de opiniões e ideias, sem que haja construção, desconstrução e avaliação dos dados e circunstâncias que corroborem a sua perspectiva. Isso pode ocorrer devido ao autoritarismo exagerado, à demanda de tempo, ou, a outros modelos de controle que predominem no status quo institucional. Para evitar esta situação, é importante prevenir a criação de uma cultura de "cenouras e varinhas" ( da expressão do Inglês, carrots and sticks), onde apenas algumas pessoas sejam ouvidas e reverenciadas com frequência, enquanto outras sejam desconsideradas. Cada decisão deve ser refletida, analisada e incorporada de forma adequada após o gestor ponderar e refletir sobre os diálogos e informações colaboradas.

Parte do problema é que na maioria das equipes, existe em maior ou menor grau uma liderança extra-oficial, que não raro, tende a influenciar o fluxo das decisões com base no tempo para a realização das tarefas, tempo do profissional na empresa, por comunicação paralela nem sempre positivas, visão burocrática estagnante ou pelo impulso de um ego majorado e de perfil impositivo do aspirante à lider. Estas influências podem vir de forma direta ou indireta. Nessas circunstâncias, podem surgir profissionais que constantemente atuam tentando imunizar o ambiente às mudanças e descaracterizando a objetividade dos processos. Estes profissionais também podem adotar comportamentos de fachada, perante a verdadeira liderança.

Por conseguinte, é essencial prestar atenção às reais demandas e perspectivas globais do trabalho, bem como às dinâmicas das equipes para assegurar maior harmonia, articulação e eficiência dos processos e da gestão. Além disso, o gestor deve ter consciência de sua própria intencionalidade e interesses, separando as questões particulares da ação profissional segura. É importante também que o gestor tenha a competência para examinar constantemente a hierarquia indireta do ambiente, garantindo a comunicação clara dos objetivos, acompanhando as equipes na orientação estratégica e direção. Em suma, o gestor deve compreender a perspectiva individual e de conjunto de cada um de seus liderados, lembrando-se de que o sistema de gestão deve estar preparado para atender ao processo de fato, e não o processo deva servir ao sistema, especialmente quando esse sistema não for o estabelecido pela ordem e liderança principais.

Caroline Lück - Texto originalmente publicado em maio de 2021

27/02/2022

SOBRE O PARALELO GOVERNANÇA E NEUROCIÊNCIAS:
Em tempos de conflitos abertos e mentes fechadas.

Minha professora, de neurofisioanatomia já dizia, que
a raiva e o medo são duas faces de uma mesma moeda.

São ambas as reações da mesma parte do cérebro a amígdala, que é responsável em sua funcionalidade saudável, por produzir impulsos de reação, proteção, sobrevivência, a famosa resposta do “fight or fly”.

Também, era a parte desativada no cérebro em históricos de intervenções neurocirúrgicas para o controle de comportamentos altamente inadequados, a drástica lobotomia.

O tálamo, por sua vez, faz o papel de “secretária do chefe”. É a porção do cérebro responsável em ordenar e controlar as informações do córtex pré-frontal para a sua receptividade e interlocução com o sistema límbico (a parte emocional do cérebro, do qual a amígdala faz parte, alocada no lobo temporal). A “secretaria” transfere informações que serão equacionadas para o uso do lobo frontal, na organização estratégica e raciocínio operacional, com o auxílio do grande conselheiro do líder, o freio inibitório, que detém o apanhado de regras, de condutas e valores para civilizar o comportamento e a resposta.

Sabe-se que a vida moderna, hiperestimulante, multitarefada e de demanda de responsividade imediata, tem até os cérebros mais dotados em alta performance, cotidianamente, sem o repouso e intervalos necessários para recuperação neuroquímica e fisiológica saudáveis para inibição de stress e para sua funcionalidade otimizada.

A questão maior é que a vida já tem mantido o gatilho do sistema “fight or flight” continuamente apertado, e ainda, após passarmos por um extenso período de tragédias a nível mundial, com a pandemia e a reflexiva crise sócio econômica acentuada, temos ao lado a retumbante questão da violência e a delirante desordem política.

Já constatei, de longa data, conhecendo, seguindo e participando da elaboração de sistemas de gestão, que a velha frase “a escola é a cara do chefe“ é verdadeira.

Na verdade, não exatamente a cara, mas a cabeça, certamente.

Com o conhecimento de gestão, como o de neurociências, e também, dos processos de aprendizagem, observei que em questões de clima organizacional, macro e microssistemas se instauram em espaços de forma correlata com as perspectivas do pensamento, da ação e até das características cognitivas de seus representantes. Espelhando muito da natureza de líderes e chefes. Sejam estas da liderança oficial, quando ela é verdadeiramente expressiva e exercida, ou a dos caciques, que surgem de forma mais ou menos velada transgredindo e rompendo com a imagem do “status quo” originalmente apresentada.

Portanto, seja a própria mesa de trabalho, ou sejam os ambientes ao em torno dos líderes, a atmosfera do contexto adquire uma representatividade daquilo que se sobressai enquanto função e forma de pensar do cérebro de seu gestor.

É portanto, demasiado preocupante que estejamos nós, vivendo em limites de nossa capacidade de ordem e recuperação emocional e cognitiva, e que ainda, estejamos sendo comandados por sistemas de liderança, onde se observa que dentre toda a mega capacidade de espaços e funções cognitivas impere a modulação, necessária, mas acessória, da amígdala e que toda a magnitude e potencialidade de um sistema nobre, articulador e promotor de significados e propósitos seja retraída.

Malmente saímos da face do medo da moeda para a face da raiva. Pergunto: quem será a liderança ou qual será a corrente que nos guiará para fora desta aposta, que não escolhemos entrar? Quem poderá olhar para o longo e sofrido inverno (agora ficando russo), nos olhos e encontrar a primavera?

Como se diz, cada cabeça um universo. No momento, precisamos prementemente de um universo a funcionar como uma boa cabeça.

Carol Lück

Mestranda do Programa de Pós Graduação em Direitos Humanos e Políticas Públicas - PUCPR; Especialista em Administração Escolar/ Neuropsicólogia e Aprendizagem.

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