Psicóloga Marcela Rocha
Sou Psicóloga e Psicanalista, comprometida com a saúde mental da população preta.
30/03/2026
É possível romper com o ideal do eu branco?
A resposta rápida seria: não completamente.
Mas essa resposta, sozinha, é insuficiente (e até perigosa).
Porque ela pode nos levar a uma espécie de fatalismo psíquico, como se estivéssemos condenados a repetir indefinidamente uma estrutura que nos violenta.
O ideal do eu não é uma escolha.
Ele é constituído na relação com o Outro, com a cultura, com a história.
E, no caso da população negra, essa história instituiu a brancura como medida de valor, beleza, inteligência e humanidade.
23/03/2026
O VI ciclo de estudos do Enegrecer-se se organiza em torno de uma pergunta que, para mim, hoje é incontornável:
quais dilemas teóricos e políticos atravessam a produção de conhecimento sobre raça?
Diante da centralidade que a categoria raça adquiriu nas últimas décadas, tanto nos debates acadêmicos quanto nos políticos, torna-se necessário examinar com mais rigor os modos pelos quais essa categoria tem sido pensada, mobilizada e investigada, especialmente no contexto brasileiro.
Não se trata apenas de tomar a raça como tema. Trata-se de interrogar as bases que sustentam sua utilização como categoria de análise, seus efeitos na produção de conhecimento e os impasses que emergem quando ela se torna objeto de investigação.
Ao longo de seis encontros, vamos percorrer esse problema a partir da leitura de Stuart Hall, Bárbara Carine e bell hooks, articulando a raça como problema conceitual, como categoria social e como ponto de tensão para a produção de pensamento crítico que possa ir além da raça
Não é um curso. É um grupo de estudos.
Um espaço de leitura, elaboração e debate.
As inscrições estão abertas.
Link na bio.
10/03/2026
O que estamos transmitindo para a próxima geração?
Gostamos de acreditar que estamos fazendo diferente.
Dizemos que não vamos repetir os silêncios que nos feriram
nem as violências que marcaram a geração anterior.
Mas a transmissão entre gerações não acontece apenas dentro das famílias.
Ela também atravessa as estruturas sociais em que vivemos.
Com frequência me pergunto: o que, daquilo que recebi dos que vieram antes de mim, não quero transmitir ao meu filho? E então a psicanálise me lembra algo incômodo: nem tudo o que transmitimos é consciente.
Transmitimos, muitas vezes sem perceber, ideias que herdamos como se fossem naturais:
a fantasia do amor romântico.
a crença de que mulheres amadurecem mais rápido.
a lógica de que homens precisam ser provedores.
a ideia de que homens são racionais e mulheres emocionais.
a reprodução do racismo cotidiano.
a naturalização do machismo, do sexismo e das hierarquias que organizam nossa sociedade.
Essas ideias circulam nas famílias, nas escolas, na mídia e nas instituições.
Aos poucos, vão se inscrevendo na forma como amamos, educamos, trabalhamos e nos relacionamos com o mundo.
Às vezes acreditamos que estamos rompendo com o passado.
Mas seguimos transmitindo, em novas roupagens, as mesmas estruturas que criticamos.
Talvez o trabalho de uma geração não seja apagar tudo o que recebeu da anterior. Mas conseguir interrogar aquilo que parecia natural.
Porque aquilo que não é questionado continua sendo transmitido. Mesmo quando acreditamos estar fazendo diferente.
07/03/2026
Durante muito tempo, a psicanálise sustentou a ideia de que o consultório seria um espaço neutro em relação às hierarquias sociais.
Mas a transferência não acontece fora da história.
Thamy Ayouch no livro "Raça no divã", argumenta que as relações raciais que estruturam a sociedade também podem aparecer a relação analítica, por intermédio da transferência simbólica.
Fantasias, identificações e posições de poder podem emergir na transferência, porque o sujeito do inconsciente nunca está completamente separado do mundo social.
Ignorar essas relações não produzem "neutralidade" (Termo que, convenhamos, é bem problemático)
Portanto, ignorar essas relações pode apenas reproduzir dentro da clínica, as mesmas hierarquias que operam fora dela.
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