Xisto Fernando
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15/07/2025
Moçambique: Contenção de Despesas ou Má Gestão das Prioridades?
Por: Xisto Fernando
Em Moçambique, uma contradição gritante revela-se nos acontecimentos mais recentes relacionados com o Governo e a gestão dos recursos naturais. Recentemente, o Executivo decidiu eliminar os subsídios atribuídos aos médicos estagiários, alegando "contenção de despesas". Esta medida tem gerado indignação generalizada, sobretudo quando se observa que, em paralelo, o país continua a receber avultadas somas provenientes da exploração de gás natural — como os 210 milhões de dólares que o projecto Coral Sul já canalizou para o Fundo Soberano Moçambicano. A questão que se impõe é: como pode um Estado que arrecada tais receitas cortar apoio financeiro a sectores essenciais como a saúde?
A Realidade dos Médicos Estagiários
Os médicos estagiários — estudantes de Medicina em fase de prática clínica — assumem um papel fulcral no Sistema Nacional de Saúde. São eles que asseguram, em muitos casos, o funcionamento diário de hospitais públicos, especialmente nas zonas rurais ou superlotadas dos centros urbanos. Trabalham longas horas, frequentemente sem condições adequadas, sem materiais suficientes, e com remunerações precárias — quando não inexistentes.
A decisão de eliminar os seus subsídios compromete não apenas o seu bem-estar, mas também a qualidade dos cuidados prestados à população. Muitos destes jovens dependem desses valores para se manterem nos estudos, cobrirem despesas de transporte, alimentação e, por vezes, até alojamento. Retirar-lhes este apoio é, em termos práticos, um golpe directo à formação médica no país.
O Fundo Soberano: Para Que Serve, Realmente?
O Fundo Soberano Moçambicano foi concebido como uma reserva estratégica, destinada a garantir estabilidade económica e justiça intergeracional. Esperava-se que servisse para reforçar sectores como a saúde, a educação e as infra-estruturas, bem como para salvaguardar o país em momentos de crise. No entanto, a realidade demonstra um distanciamento crescente entre a acumulação desses fundos e a melhoria efectiva das condições de vida da população.
A pergunta impõe-se: como pode o país alegar falta de meios para sustentar estagiários da saúde, quando está a consolidar milhões de dólares num fundo estatal? O que se esperava como motor de transformação nacional está a ser convertido, por má gestão ou prioridades distorcidas, num cofre fechado, alheio às urgências sociais.
O Erro de Prioridades
Moçambique não é um país pobre em recursos. Pelo contrário: é detentor de vastas riquezas naturais. O verdadeiro problema reside na forma como estes recursos são geridos — e, sobretudo, em quem realmente deles beneficia. Enquanto os dirigentes fazem discursos sobre contenção e austeridade, multiplicam-se as viagens governamentais, os subsídios a elites partidárias, os projectos de fachada e as despesas com luxos institucionais.
Cortar subsídios aos futuros médicos do país é um acto de cegueira política, de insensibilidade social e de profunda irresponsabilidade. Os estudantes não devem ser tratados como números num orçamento que se ajusta consoante conveniências políticas. São seres humanos que escolhem dedicar-se ao serviço público, muitas vezes em condições difíceis, e merecem reconhecimento, dignidade e apoio.
Conclusão: Um País de Contradições
Moçambique vive um paradoxo inquietante: há dinheiro, mas não há investimento no essencial. O país acumula milhões em receitas provenientes do gás, mas continua a falhar na protecção dos seus sectores vitais. A contenção de despesas não pode justificar tudo — muito menos quando se trata de áreas estruturantes como a saúde.
É tempo de o Governo moçambicano repensar as suas prioridades. O Fundo Soberano não pode ser uma reserva política ou um cofre para uso desconhecido. Deve estar ao serviço da população, sobretudo dos que asseguram os cuidados médicos, a educação e a coesão social. Sem isso, estaremos a construir uma riqueza artificial, desligada da realidade do povo.
Não se pode continuar a sacrificar o futuro da Nação em nome de uma estabilidade financeira que apenas serve os mesmos de sempre. É hora de inverter o rumo — com coragem, com justiça, com visão de país.
11/07/2025
A OJM não representa a juventude moçambicana
Por: Xisto Fernando
Dizem que a OJM – Organização da Juventude Moçambicana – representa todos os jovens do país. No entanto, eu, como muitos outros jovens, não me identifico com esta organização. A verdade nua e crua é que a OJM não é a organização da juventude moçambicana, mas sim a organização da juventude da FRELIMO.
A prova disso é clara: as eleições para eleger o próximo líder desta agremiação serão realizadas na sede do partido FRELIMO. Como pode uma organização que se diz nacional e representativa de todos os jovens realizar os seus processos internos dentro de uma estrutura partidária? Isso não é apenas incoerente, é profundamente injusto. Porque nem todos os jovens moçambicanos pertencem – ou querem pertencer – à FRELIMO.
A juventude moçambicana é diversa, crítica, criativa, e tem dores reais: desemprego, falta de acesso à educação de qualidade, exclusão social, violência e ausência de oportunidades. No entanto, a OJM tem servido apenas como eco das decisões partidárias, longe de ser uma voz independente que leve ao poder político as reivindicações legítimas da juventude.
Talvez seja a partir da OJM que se elaboram certos relatórios que tentam pintar um cenário irreal, dizendo que os jovens estão satisfeitos com a governação. Mas nós sabemos a verdade: esta organização não fala por nós. Não vive os nossos dilemas. Não sente as nossas angústias.
Nós, jovens moçambicanos, precisamos urgentemente de uma organização que não esteja amarrada a nenhum partido político. Precisamos de uma plataforma livre, aberta, transparente e verdadeiramente representativa. Uma organização que lute, com independência, por políticas públicas que melhorem a vida dos jovens – sem bajulação, sem alinhamentos automáticos com o poder, sem fingimentos.
Está na hora de deixarmos de aceitar que se fale em nosso nome sem nos ouvir. Está na hora de construirmos novas formas de organização que respondam, de facto, às necessidades da juventude moçambicana.
Para ocupar um cargo político que tem a ver com, artes e cultura, não precisa necessariamente que seja um artista, basta que seja alguém que pense na cultura no seu todo, e mude alguma coisa..
17/06/2025
Formação Jornalística: Uma Urgência Silenciosa na Imprensa Moçambicana
Por: Xisto Fernando
Há discussões que, apesar de antigas, continuam a clamar por ressurreição. Uma delas é a velha questão: é necessária a formação académica para se fazer jornalismo? Alguns sustentam que basta saber escrever, ter boa dicção ou até uma aparência agradável para a televisão. Outros, entre os quais me incluo, defendem que o jornalismo, para ser digno desse nome, exige formação técnica e ética — e essas ferramentas não se colhem nas ruas, mas sim nos bancos da escola.
O jornalismo não é ofício de improvisação. Não basta ter boa presença de câmara nem saber falar com desenvoltura para merecer o título de jornalista. O jornalismo é uma prática social com responsabilidades profundas — éticas, humanas e cívicas. Reduzi-lo à aparência ou ao talento comunicativo é desprezar o papel estruturante que esta profissão tem numa sociedade democrática. E, mais grave ainda, é desacreditar o trabalho das instituições que, com esforço e escassez de meios, formam profissionais para este ofício.
Ao negar a importância do curso de jornalismo, estamos, implicitamente, a afirmar que as universidades que oferecem esta formação estão a gastar recursos públicos em vão. O que, convenhamos, não é só uma ofensa às instituições, mas também uma negação da construção de um saber colectivo.
A crise ética e técnica que assombra parte significativa da nossa imprensa é reveladora desta ausência de formação sólida. Basta observar a forma como certos canais de televisão tratam os temas de justiça. A TV Miramar, por exemplo, tem adoptado uma linha editorial que transforma entrevistas de rua em verdadeiros tribunais televisivos. Os alegados criminosos são interrogados diante das câmaras como se estivessem perante um juiz — sem qualquer respeito pela presunção de inocência, pelo contraditório ou pelos direitos fundamentais do indivíduo. Mesmo que se trate de um confesso, o jornalista não deve, não pode e não tem legitimidade para assumir o papel de magistrado.
Não se trata de uma questão de estilo ou escolha editorial. Trata-se de princípios. E princípios jornalísticos não são maleáveis ao gosto da audiência ou da audiência ao gosto do canal. São regras deontológicas que se aprendem com estudo e prática orientada. Sem isso, teremos apenas performers da informação.
Noutras estações, o jornalismo transformou-se em fábrica de memes, alegando que é uma forma “inovadora” de comunicar com o povo. Mas é preciso perguntar: que tipo de povo se quer formar? Um povo informado ou entretido? Um cidadão crítico ou um consumidor passivo de piadas informativas? A fronteira entre o jornalismo e o entretenimento está a esbater-se perigosamente, e o que vemos cada vez mais são jornalistas que se tornam protagonistas do espectáculo, eclipsando a notícia que deveriam mediar.
A função do jornalista não é ser notícia. O jornalista é, ou deve ser, a ponte entre o facto e o público. Quando o jornalista se torna mais importante que o acontecimento, há um problema de ética profissional. Infelizmente, vivemos tempos em que abundam jornalistas-celebridade e escasseiam jornalistas de investigação. E isso tem impacto directo na qualidade da informação a que o cidadão comum tem acesso.
Hoje temos mais repórteres do que jornalistas. Mais microfones do que apuração. Mais pressa do que precisão. E essa realidade é o reflexo de uma sociedade que ainda não compreendeu a importância da formação jornalística como pilar da liberdade e da democracia.
Por isso, a resposta à pergunta inicial parece-me evidente: sim, é necessário curso de jornalismo para se fazer jornalismo. Não porque o diploma, por si só, garante competência, mas porque a formação académica fornece os fundamentos para uma prática ética, crítica e transformadora. Tirar esse mérito é matar o jornalismo antes mesmo de o praticar.
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